Opinião

Raízes e oceano

I. O nosso Dia

Há lugares no mundo que não se explicam. Sentem-se. Nove ilhas nascidas do fundo do oceano. Nove formas de dizer que somos daqui — com orgulho, com raízes, com saudade. O nosso povo construiu tudo sobre pedra vulcânica e mar revolto. E mesmo assim, floresceu. Resistiu. Ficou. No dia dos Açores não celebramos apenas uma data. Celebramos quem somos, de onde viemos, e tudo o que ainda vamos ser. No nosso dia, somos todos um. Somos todos Açores. E isto não se explica. Sente-se.

II. Lajes: aliança não é vassalagem

A importância estratégica da Base das Lajes é indiscutível para os Açores, para Portugal e para a nossa projeção internacional. Ser aliado dos Estados Unidos não implica ser vassalo nem aceitar todas as decisões da mais errática administração norte-americana. O Ministro Rangel esteve mal desde o início, com declarações contraditórias e opacidade à mistura, assim como mal esteve o Presidente do Governo que reduziu as Lajes a uma mera dimensão transacional.

III. Da floresta ao mar

Esta semana dividiu-se entre Estrasburgo e o Chipre, com uma linha comum: defender quem produz, os territórios e os recursos naturais. Em Estrasburgo, votámos o acordo sobre material florestal de reprodução, no qual fui um dos negociadores pelo Parlamento Europeu. Parece excessivamente técnico, mas é essencial. Trata das sementes e plantas usadas para criar novas florestas, recuperar áreas ardidas e preparar as árvores para alterações climáticas e mais secas e pragas. Em Portugal, plantar mais já não chega. É preciso plantar melhor. Debatemos também a estratégia europeia para os fertilizantes. Há mais de um mês, por minha iniciativa, os eurodeputados socialistas da Agricultura questionaram a Comissão Europeia sobre a subida dos custos de produção. A resposta chegou tarde e fica aquém. Duzentos milhões de euros para milhões de explorações agrícolas europeias revelam a escala da insuficiência. Cantar vitória perante tão parcos resultados, é confundir a árvore com a floresta. No Chipre, participei, a convite do Comissário Kadis, no Dia Europeu do Mar. Debatemos o Pacto Europeu dos Oceanos e o próximo orçamento europeu. A mensagem foi clara: sem financiamento justo, não há pescas sustentáveis nem futuro para comunidades costeiras, insulares e ultraperiféricas como os Açores.

IV. Israel: tarde e pouco

Uma última nota sobre Israel. A humilhação pública de ativistas humanitários é moralmente repugnante e politicamente inaceitável. Há muito que, no Parlamento Europeu, defendo a suspensão do Acordo de Associação UE-Israel enquanto persistirem violações graves do direito internacional e dos direitos humanos. Aos poucos, mesmo os que se calaram perante tantas e tão grosseiras violações, começam timidamente a perceber que estavam do lado errado da História.

Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu